Arquivo do mês: julho 2009

trecho de pessoa

“Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resolver a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ..”

A Passagem das Horas – Álvaro de Campos

Ousar e calar.

Ah! E eu tava pensando numa coisa dita numa discussão entre eu e a Arellah no supermercado, antes da grande lição do dia. Pensando naquilo que ela me falou: “ousar e calar”. Mais uma vez ouço isso. E gosto quando esse assunto é pronunciado. Porque como disse a Tsunami, eu sou dona disso, e sou mesmo; quer dizer, eu era mesmo porque tá diminuindo. Eu tô me tocando disso e cada vez mais tô me afastando dessa realidade. Sempre tive a língua inquieta, mas sempre sem maldade. Falava de mim mesmo, essa forma de egoísmo perene sempre com uma pontada de circunstância e inocência que era descomunal. Mas a maturidade mais uma vez me abriu portas e eu pode enxergar além.

Tenho que parar um pouco e perceber que nem todos ainda percorrem o  mesmo caminho meu. A compaixão aqui é derramada e  necessária. Saber até onde, também, vai o outro, é primordial.

ins pirações

Hoje o encontro foi lunático. A lua mesma sorria, na beira da água fria, a gente entendeu que ao mar Deus deu abismo e perigo, mas nele espelhou o céu. O céu que olhamos e que falou com a gente.

A pergunta era, qual o limite do querer? Por que não querer sem limites? Perder-se no limite, talvez não seja o que buscamos. Não queremos nos perder, mas não vamos nos agarrar a nada.

Me ensinaram um dia que eu deveria falar EU quando estivesse me referindo ao que acontece por aqui. Então por que eu não posso querer sem limite e me entregar a tudo esperando o melhor, o que vai entrar e me transformar sempre, pra que eu, em processo de mutação caótico, daquele caos explosivo que dá origem as coisas, entre dentro de cada uma das coisas que entrarem em mim…

Ai, que sede de infinito!

Obrigada, Pai, pelas flores do caminho. Pelo caminho. E pelos meus pés e a capacidade do meu corpo de ir ali e aqui e aí… Muuuuitissimamente muito obrigada! 😀 😀 😀 😀

sob o sol, borboletas

Um vestido de flores chamou a atenção, talvez. Mas nem interessa depois que ela pousa e o instante do agora há pouco inunda a memória sensorial. Gente, ela pousou no meu pé! Ainda sinto o corpo e o leve vento escapando das asas.

Era sol… E o sinal é esse. “Continue a nadar, continue a nadar…”

Impermanente.

Deixe como está. Esqueça do tempo. Não mande notícias nem diga por onde andas. Muito menos queria saber por onde anda alguém. Fique na sua. Fale pouco. Somente o necessário. Mas quando o fizer, deixe sempre um fiozinho escapando, pedindo pra ser puxado. Mas nunca diga isso claramente. Seja um imã. Atraia.

Respire fundo. Conte até cem se precisar. É melhor assim. Deixe o let-go te absorver. Fique quieta, fique calma. Esqueça o telefone. Esqueça os emails. Esqueça principalmente os impulsos. Deixe os instintos pro encontro, quando este vier. Seja racional.

Enquanto isso cante, corra pelas ruas depois da chuva. Veja aquele filme que espera a duas semanas. Olhe-se no espelho. Perceba-se. Medite. Escreva pra Londres ou pra longe, não importa. Faça apenas praquele que quer receber.

Mesmo assim pode ainda sentir desejo. Sinta-se mais desejada, menos desejosa. Sinta-se por inteiro. Saiba primeiro quem você é. Depois pesquise-se nos outros. Deixe que estes transpareçam cada pedaço de você espalhado no mundo. Cada suavidade percebida. Cada lasca de vida.

Pois tudo é assim mesmo. Aprender a jogar é necessário. Porém, o bom mesmo é não permanecer.

Invente-se

Tempo das transformações…  A cruel  falta de certeza havia estacionado ali mesmo, dentro dela. A dúvida constante que a levava a rever sentidos, refazer caminhos… A surpresa consigo mesma agora era a regra.  E como estava sendo excitante ser uma estranha para si!!  E ela bailava no seu caos, que estranhamente lhe doava sentido como nunca havia experimentado.   Permitiu-se ser outra, outra idéia, outra crença, outra escolha, outra repetição… Viu todas as matizes de cores de que era feita, e se encantou… E cantou a mulher que nascia, dançando segundo as curvas de seu corpo pediam. Foi uma cena enebriante… Coisa contada só pela mitologia!! Cores, dúvidas, sentidos, repetições, escolhas, melodias e canções: e de quê mais ela se permitiria ser feita?

sobre a saudade

Eu falaria uma coisa que ouvi do Neruda. Ele diz que é proibido sentir saudades sem se alegrar, esquecer os olhos, o sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram…

Bonito, né? Por isso fico feliz com a dor da saudade. Dói, mas é bom saber que já se amou. Que ainda se ama. E que, embora não mais possamos satisfazer as ânsias do nosso apego, ainda sim existe amor dentro de nós.

A saudade é um filme sem cor? E que filme sem cor muito doido que a gente viu ontem, né? Morangos silvestres. Me fez pensar em como nós podemos nos doar sempre. Melhor ter saudades tendo amado muito, muito, muito, muito…

Beijos, com amor!

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Voltando, pois eu saí rápido e não terminei de falar as coisas que tinha pra falar. Agora é dia 24 de julho. E o que são os dias? Dias em que estou comigo, sempre. E dentro de mim tenho todos os que passaram por mim e tudo que vivi, vi, ouvi até aqui…

Meu querido, um dos olhares que passou pela minha vida (e permanece) me disse assim… não fica assim, a saudade é herança do amor. Eu sorri. Aquele meio sorriso, que quer dizer que sim, dói. E sim, é lindo esse doer.

“Todos que estão em mim e me são ausentes”, se eu falasse assim estaria mentindo. Seria uma incoerência louca. Tenho pensado que talvez essa necessidade seja muito egoísta mesmo. Ego, ego, ego. Apego.

Maaaas… que os céus sabem o que fazem, a gente se alimenta dessa certeza intuida, então que seja! O que é meu é esse amor e que ele pulse e exploda e se espalhe e entre na substância das coisas e inunde a vida desses e dos outros, que o amor se espalhe, é isso.

Outro beijo, com amor!