Arquivo do mês: novembro 2010

Dor e Deslumbramento

A questão do afeto é sempre uma grande questão a ser pensada.   E só experimentamos o afeto por causa dos nossos relacionamentos. É na relação primordial da mãe com o bebê, que este passa a experimentar gradativamente afestos, sentimentos, vontades, sensações que o marcarão para sempre.  Se somos constituídos a partir de relações intensas e marcantes porque temos tantos atropelos em nossos relacionamentos? Alguns autores da psicanálise e de filosofias orientais afirmam que desde o início, na origem da relação mãe-bebê os descompaços se fazem sentir. A própria mudança brusca no estado intra-uterino para o mundo externo é fonte de fortes e desagradéveis sensações. Sensações tais como, a fome, a sede, as dores abdominais pelo aparelho digestivo em adaptação, a luz.  Mas, são essas sensções fortes, que trilham caminhos em nossos neurônios, nos levando a buscar saídas e a aprender. A dor, então, nos acompanha por toda a nossa existência, desde a origem. É nos relacionamentos afetivo-sexuais que experimentamos uma quantidade maior de incertezas e receios. Nestes, a possibilidade de decepção é mais marcante, pois o que nos leva a estar com o parceiro, não foi erigido sobre bases fundantes como o elo de ligação com os pais e familiares. Sabemos que antes de conhecermos aquela pessoa, vivíamos sem ela, e nos questionamos até quando esse sentimento irá animar os parceiros e fazê-los desejar estarem juntos. Acredito que não existe uma resposta única para esta questão, mas arriscar reflexões é sempre frutífero. Talvez possamos definir o que anime um casal a permanecer prazerosamente juntos, seja algo como um encatamento. Encatamento se traduz na sensação de falta que o outro nos faz. Assim como no início de nossa cosntituição, a falta dos que nos eram caros,  foi motor de nosso aprendizado e desenvolvimento. Falta, essa, sustentada pela presença alternada. A falta que o outro nos provoca nos move a querer estar junto. É o motor do nosso desejo, que nos faz re-experimentar a satisfação, nunca completamente saciável, de interagir com o outro. Portanto, a tão conhecida e avassaladora paixão, pode se atenuar, mas o encatamento permanece movendo e ascendo o desejo pela busca do outro. É deslumbramento sempre presente, por vezes mais silencioso, outras mais vibrante.  Como diz Lacan:

                     Amor é dar aquilo que não se tem, aquele que não pediu.

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